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Não Há Rock Nesta Cidade

Não há rock nesta cidade. Não há bandas promissoras que se perdem em casas de banho com modelos que não conseguem manter a linha. Há miúdos que tentam tocar nos festivais com vídeos do youtube. Como, por casualidade do destino, sou amigo de alguém que tem uns amigos que têm uma banda, o papel de realizador de um desses vídeos veio parar às minhas mãos. Então passei os últimos quatro dias a trabalhar nisso. Não queria falar muito sobre isso agora, acho que devia guardar esta história para quando soubesse o desfecho. Para já, dou-te alguma informação que talvez te vá fazer querer saber mais sobre eles. Chamam-se Self Fish. Não é o melhor nome de sempre, mas confesso que já ouvi piores. Dizem ser uma agradável mistura de krautrock, psych (para os menos fixes, rock psicadélico), prog (mais uma vez, rock progressivo) e garage. Muito sinceramente acho que nada disto faz sentido, e confesso que julguei ouvi-los dizer proxy lá para o meio. Para mim eles são uns putos, que até tocam bem, a dar uma de rockstars (ou estrelas do rock, para quem não é tão cool – ou fixe). O Gordo, também conhecido como O Vocalista, teimava em ter ideias para o vídeo. Só o ouvia dizer “gajas, gajas, gajas” e ria-me. Disse-lhe que ele não era o Jay-Z e ficou olhar para mim espantado. Aí percebi que não valia a pena tentar ser engraçado. Começamos a falar do projecto de forma profissional e aí tudo perdeu a piada. Se calhar, no desenrolar disto, vou ter uma história melhor para te contar.
É segunda e acordei relativamente cedo. Pensei em ir correr e aproveitar o bom tempo. Talvez amanhã, hoje já não vai dar. Pus-me a pensar no que pode ser dar uma de rock’n’roll. Passado algum tempo, não consegui perceber o que o Gordo queria dizer com isso. Podia ser da ressaca também. Ontem acordei por volta da uma e fui de cuecas e tshirt velha para a mesa. Eu sei que não são os melhores trajes para um almoço de domingo em família, mas sinceramente já não quero saber. Se calhar isto é dar uma de rock’n’roll. Barba por fazer, olhos inchados, sim, isto é do rock. Era um bom dia para passar a tarde em casa, mas não dava para descansar com a minha sobrinha sempre a gritar “tio, tio, tio”, só porque é a única palavra que sabe dizer. Falei com o Robbie e o Afonso para irmos tomar um café numa esplanada qualquer ao fim da tarde. Depois de tantos berros estridentes da minha querida princesa e de estar duas horas a tentar perceber se a Rachel Zoe parece velha para a idade que tem (ou o contrário), o meu cérebro precisava de cafeína.
Na praça onde nos encontramos, estava a acabar uma feira de artigos em segunda mão. Tivemos lá às voltas à procura de algo que valesse a pena investir uns trocos. Eu comprei uma câmara Nikon point and shoot por cinco euros e o Robbie encontrou um tripé (que dá sempre jeito para tirar fotos abraçado às miúdas) por dez. Contudo, a melhor compra foi a do Afonso: uma caneca do Borussia Dortmund por cinquenta cêntimos. Eu, se fosse ele, bebia tudo por ali. Com isto, o café de fim de tarde transformou-se num jantar. Decidimos ir ao café do costume comer uma francesinha e demos por nós no meio de um acontecimento desportivo. Um dos três grandes estava a jogar com um ense (talvez Moreirense ou Olhanense). A equipa da casa ganhou. Depois de umas horas a passar os olhos pelos jornais e a comentar o jogo que tinha acabado, o Robbie fez a melhor proposta que podia fazer ali: “E se fossemos fumar um charro?”.  Aceitamos, claro, e sugeri que fossemos para um sítio agradável. Já no carro optamos por ir até um parque de estacionamento que fica num ponto alto da cidade. Acho que deves saber qual é o lugar de que estou a falar, é para onde os casais ocasionais vão para terem conversas embaciadas e ignorar a vista. Fumamos a olhar para o rio, enquanto eu, em palavras tropeçadas ao som de um hip-hop malandro, explicava como o parque de estacionamento é um não-lugar. Nisto, em modo autista, o Afonso lembrou-me que estava outra vez a ter aquilo que ele chama de não-conversa e lembrou-se que podíamos ir a um bar qualquer. Obviamente lembrei-me do Girls que não era muito longe dali. Mas pensei duas vezes antes de o sugerir. Contudo, uma vozinha na minha cabeça dizia-me don’t let the high go to waste.
No Girls, o que não faltavam eram boys. A música era algo que se podia classificar como electro forró progressivo e depois de umas quantas bebidas bem que podia ser King Crimson a tocar Ivete Sangalo que nenhum de nós ia reparar. Ficamos sentados numa mesa alta, com cadeiras igualmente altas e, por isso, o Afonso (que é o mais alto dos três) ficou responsável por ir buscar as bebidas ao bar. Sentia que estava num especial estranho do National Geographic. De um lado quarentonas que pareciam estar com a roupa que levaram às comunhões dos filhos e do outro miúdas de quinze ou dezasseis anos que estavam vestidas como se fosse o baile de finalistas. No meio estavam os homens, com cigarros e copos, a dançarem como quem não se quer esforçar muito, mas sempre a caçar com os olhos. Aqui as presas eram fáceis e os predadores eram eficazes. Enquanto isso, os pedrados estavam colados no que os rodeava. O Robbie disse que o empregado do bar se estava a atirar a ele. Eu e o Afonso rimo-nos na cara dele. Ao longe, parecia bastante heterossexual: um rapaz giro de camisa branca aberta, calças justas, colar de ouro a ver-se, o típico macho latino. “O outro”, disse. Então vi a peça: um quarentão, moreno de jet bronze, boina aos quadrados, cabelo com madeixas loiras, lentes de contacto azuis e uma camisola roxa com um arco-íris em lantejoulas. Foi então que este saiu do bar e dirigiu-se ao palco onde estava o DJ – como se fosse uma caricatura de um zombie gay. “Meus queridos, vai começar o karaoke”. De seguida puxou, sem qualquer tipo de cortesia, um rapaz (talvez com a minha idade) que estava sentado com as amigas ali perto. Este parecia ter vindo de um casamento: fato claramente feito à medida, com um lenço em vez de gravata e uns loafers com berloques. Ao som de “we are young” dos FUN. sorria enquanto era obrigado a cantar. Com isto, reparei que o grupo do meio começou a dispersar. Enquanto o zombie gay e o rapaz de fato cantavam, os machões de camisolas caveadas fugiram para o balcão para pagar. Gradualmente, o bar começou a ficar mais vazio. Quando deu por mim, já estava quase vazio e o Robbie estava a falar com o barman. Vejo no ecrã: “A Little Respect”, Silence 4, e soltei um grande “oh não!”. O Robbie cantou, sentiu, quase que chorou e nós, como bons amigos que somos, demos-lhe apoio enquanto nos riamos e gozávamos com ele.
Quando voltei da casa de banho – depois de um grande esforço para lavar a cara com os óculos postos – vi que o Robbie e o Afonso estavam no balcão à minha espera para beber o último shot. Eu vi a morte à minha espera. Bebi e fiz cara feia, mas disfarcei aguentar sem qualquer problema. Já no parque de estacionamento do Burger King ou McDonald’s, o Robbie contou que gosta mesmo da Rita ou Susana. Não estava a contar ter este tipo de sentimentos por ela. Talvez por ela ser extremamente bonita e rapazes como nós não costumam arranjar raparigas como ela. Ele, no início, só queria se divertir, aproveitar que tinha com ele alguém a quem muito se referem como uma grande gaja e poder se gabar por isso. Todos nós aspirámos poder dizer, Estás a ver aquela ali? Pronto, já fui lá. Pode ser machista se calhar, mas eu percebo o sentimento, a ideia de conquista. Afinal de contas, nós ainda dizemos que África já foi nossa. Isso faz de nós nacionalistas ou colonialistas? Penso que não, faz de nós orgulhosos pelo que já tivemos, nem que seja pelos motivos mais errados. Mas agora o Robbie era humano outra vez, gostava dela, já não era uma mera conquista. Quando estas coisas acontecem, eu fico sempre confuso. Se por um lado é o medo de não saber o que o mundo tem para lhe dar, que o amor faz as pessoas mudarem o seu amor próprio para cuidar daqueles que andam perdidos na selva, por outro lado pensava que Robbie podia dar oportunidade ao amor. Eu sou um romântico sem esperança, acredito que o amor vence tudo. Mas quando vi um pingo de dúvida a correr pelo olhar do Robbie, tremi.
Estava na hora de ir embora. Eu queria ir para casa para descansar, estava a contar ir correr no dia seguinte.

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