Não há sexo nesta cidade. Não há amor, não há encontros casuais, nem Marlboro Lights nem os sapatos do costume. Há havaianas, portugueses que falam francês, ingleses gordos e miúdos loiros que não consigo perceber se são irmãos ou namorados. Estamos no pico do Verão e esta cidade ainda continua a não ser o que diz ser. Nesta altura, eu e os meus amigos devíamos estar numa praia filtrada de instragam ou numa casa de férias com chapéus de palha. Mas não. Estão vinte e muitos graus (talvez trinta) e eu estou numa esplanada onde umas senhoras e os seus netos tomam o pequeno almoço e, quando uma criança sorri para mim, provo que sou o rapaz social mais anti-social de sempre. Se calhar, era de bom tom apresentar-me: chamo-me César Barros e tenho vinte e seis anos. Penso que por agora não precisas de saber mais sobre mim. Só precisas de saber que sou um rapaz como tantos outros que, mesmo não tendo nada em especial a dizer, vai dizê-lo de qualquer das formas.
Há uma hora atrás, o Robbie estava nesta mesma mesa, a falar-me da noite de ontem. Ele, por norma, não tem muita sorte com as mulheres. Digo que é falta de sorte e não falta de jeito porque não acredito que alguém possa fracassar tantas vezes. No meio de tantos dates – como insiste em chamá-los – um, pelo menos, podia correr bem. Há duas coisas importantes a saber em relação ao Robbie e as mulheres: primeiro, todas parecem normais, a maior parte delas até são giras e num dia como o de hoje até arriscava dizer que todas passam o teste do “mas tu ias lá?”, contudo, ele acaba sempre por descobrir que estas sofrem de algum flagelo ou que a vida da rapariga em questão foi amaldiçoada com algo trágico; em segundo, é que os ditos dates nunca passam do primeiro. O que complica ainda mais as coisas, é a falta de sexo. Ninguém salta para cima de ninguém depois de um café de piadas mal contadas e de histórias sobre o quão cool são os amigos. E a questão é: como pode um homem agir em condições quando, por muito puras que sejam as suas intenções, não consegue pensar noutra coisa? O plano ideal seria tratar do sexo e da vida amorosa separadamente. Assim, o Robbie podia aliviar as suas necessidades carnais e estar limpo de pensamentos para poder conhecer uma rapariga em condições para nos apresentar no café. Contudo, o problema é que os hook ups não são assim tão comuns como o cinema faz parecer. Talvez se ele vivesse sozinho ainda conseguir seduzir com a pinta de jovem independente que faz pela vida e que nem todos os moveis são do ikea (mesmo sendo). Mas andar com o carro da mãe não é assim tão sexy como ele possa achar, mesmo tendo só vinte e quatro anos.
Deixa-me voltar ao porquê de eu estar aqui, neste café, a falar sobre isto. Eram sete e meia da manhã
quando o Robbie me ligou a perguntar se eu queria ir tomar o pequeno almoço com ele. Estranhei,
obviamente. Isto nunca fez parte dos nossos rituais. Nem no liceu. Eu, que tinha acabado de acordar, disse que sim. Ultimamente tenho pensado ir correr de manhã, para aproveitar que está calor mas não o suficiente ainda para ser desagradável. Mas na manhã de hoje, como todas as outras que a antecederam, eu ia ficar pela cama, pelo menos até às dez e acabaria por dizer a mim mesmo que amanhã ia ser diferente. Às nove cheguei aqui. Estava ele então à minha espera, com ar de quem estava com a roupa do dia anterior. Assim que o vi, sério como em poucas vezes, pensei que algo o afligia, talvez tivesse acontecido algo que ele me quisesse contar pessoalmente. Mas não. Prontamente começou a contar como foi o seu date da noite anterior. Enquanto falava, eu só pensava, “Mas onde está o meu croissant?” Não conseguia perceber o porquê de ele me estar a contar esta história neste contexto. Podia ter esperado pelo café da noite. Então, apenas uns segundos depois de a miúda que nos atendeu pousar o dito croissant à minha frente, percebi que o Robbie e o seu date (que de momento não me lembro do nome mas penso que era algo como Rita ou Susana) passaram a noite juntos. Aqui, o quadro mudou de cor. Eu pensei logo que este pequeno almoço iria ter uma aura tasqueira que eu não antevi. Os dois amigos na pastelaria a falarem da noite anterior sem ainda terem ido à cama. E é ai que há outra reviravolta. Eles passaram a noite juntos, sim, e também não foram à cama, mas esta história ficava melhor se tivessem ido. Pelos vistos, o Robbie e a Rita ou Susana foram tomar café. E ai tudo correu bem, falaram das bandas, dos filmes, a típica conversa do vamos saber quem somos pelo que gostamos. Depois desse café prolongado, o meu amigo Robbie, como cavalheiro que é, ofereceu-se para dar boleia à donzela que o acompanhava. Porém, esqueceu-se que esta morava a vinte quilómetros do sítio onde estavam. Após a viagem, devem ter chegado a casa dela por volta das três ou quatro da manhã, não me lembro bem. E ficaram a falar no carro até as seis ou sete. Lá está, era demasiado cedo para ele me contar esta história, posso ter perdido alguns detalhes importantes. Mas percebi claramente o que aconteceu. Mais uma vez, o Robbie caiu na sua própria armadilha. Tentou dar uma de gajo sensível que fala sobre sentimentos e não toma iniciativa porque respeita a rapariga com quem está e acabou a noite a ouví-la falar do ex-namorado. Ele contou-me tudo que ele lhe fez e de como isso a magoou e deixou marcas, mas que mesmo assim, ela ainda pensava nele. Aqui, uma pessoa normal pensaria que se calhar a Rita ou Susana não estaria pronta para se envolver com alguém, que se calhar precisa de tempo para curar as suas próprias feridas. Robbie viu uma oportunidade para ser um bom rapaz e ajudar esta pobre e triste rapariga. Ele
sempre teve um estranho gosto por querer salvar as pessoas. Pena é que ele ainda não percebeu que as pessoas não podem ser salvas dos seus sentimentos, que não é ele que vai mudar o que as pessoas sentem, senão elas mesmas. Mesmo assim, conseguindo ver o que há de mais trágico e fatal nesta história não lhe consegui dizer nada. Antes de ir embora, para devolver as horas que devia à cama disse-me que ouviu uma música que não ouvia há muito tempo na rádio. Antes que perguntasse qual era disse-me, “Last night I dreamt that somebody loved me”. Fingi que não sabia qual era a música e perguntei de quem era. Mas o que eu queria dizer era: tem cuidado, não queiras estar com alguém que ainda tem fantasmas na cabeça, não queiras viver à sombra de ninguém, não queiras ser o plano b de
ninguém. “É dos Smiths, pensava que conhecias”, disse-me. Às vezes não nos podemos pôr em frente das ilusões dos outros. Deixei que partisse sem interferir.
Então levantou-se e foi embora.
Comentários
Enviar um comentário